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O sotaque caipira que nasceu na cidade grande


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Para quem gosta do sertanejo da gema, sem o oportunismo melado do romântico industrial, a música Rapaz Caipira, que Renato Teixeira compôs em 1999, ainda representa um marco contra o estereótipo usado pelo mundo urbano para idealizar o homem e o jeito de falar do interior.

“Qui m\’importa, qui m\’importa. O seu preconceito qui m\’importa. Se você quer maiores aventuras, vá pra cidade grande qualquer dia. Eu sou da terra e não creio em magia. É só o jeito de um rapaz caipira.”

Se o rapaz caipira, imaginado por Teixeira, ou o violeiro pintado por Almeida Junior cem anos antes viajassem hoje para a cidade grande, talvez se sentissem ainda mais descaracterizados, não só pela música de hoje atribuída à sua cultura. Pois descobririam que o seu próprio sotaque – o r retroflexo ou arrastado, aquele que se pronuncia em fim de sílaba, como em “imporrrrta” – veio de lá mesmo, e não do interior. É o que afirma o professor da Universidade de São Paulo e pesquisador do CNPq Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, coor­denador de pesquisas sobre a história e a variedade do português paulista às margens do Anhembi, antigo nome do rio Tietê.

Almeida integra o chamado Projeto Caipira, um dos grupos do Projeto para a História do Português Brasileiro, que existe desde 1998 para historiar o idioma em São Paulo. Ele examina de material escrito antigo a oral atual em regiões paulistas situadas às margens ou próximas ao Tietê: Capivari, Itu, Piracicaba, Pirapora do Bom Jesus, Porto Feliz, Santana de Parnaíba, Sorocaba e Tietê.

Equívoco
A professora explica que há a hipótese de que tenha havido um equívoco na interpretação da pronúncia do r e do l em final de sílaba, interpretação essa feita por indígenas que não distinguiriam esses fonemas como no português e motivada pela proximidade articulatória entre o r retroflexo e o l, que àquela época seria velarizado, como ainda hoje o é na maioria dos falares portugueses.

– Os indígenas, principalmente do tronco tupi, acompanhavam as bandeiras. A hipótese da interpretação indígena é compatível com a difusão feita pelos bandeirantes paulistas. A falta do r retroflexo no inventário de fonemas das línguas do tronco tupi citada como contra-argumento à hipótese da influência indígena, no meu entendimento, a reforça. É a falta do r retroflexo no seu inventário que causa a interpretação equivocada – diz.

Até então reinava o senso de que o sotaque caipira teria nascido no interior paulista, em especial no Médio Tietê, que inclui regiões de Campinas, Piracicaba e Sorocaba.

– Todos que tendem a pensar assim estão fazendo um recorte no tempo, em um contexto presente. Esquece-se o percurso histórico da origem e a formação do que hoje é esse estado, sua capital e seu interior. É como se essa variedade do português do Brasil, o dito sotaque ou dialeto caipira, fosse fruto de ações recentes, apenas. Enxerga-se a região da capital e, da mesma forma, do interior como é hoje – explica Almeida.

Chico Bento: estilização cujo sucesso se explica pela expansão do sotaque não só no interior paulista

Americanos
Outra lenda testada pelos pesquisadores é a de que o sotaque da região do Médio Tietê seria fruto da colonização de norte-americanos.

De acordo com o professor Almeida, isso não passa de hipótese. A presença americana tem sua parcela de influência significativa no sotaque caipira, mas não única.

– É necessário considerar toda a história social da região desde o início da colonização, passando pelos bandeirantes, monçoeiros, tropeiros até hoje.

O caipira é considerado exclusivo se forem tomadas as mesmas características identificadas na região do Médio Tietê (da sintaxe ou das construções da frase, do semântico-lexical ou do vocabulário e seu sentido, e da fonética ou da pronúncia, incluindo a prosódia, canto ou “maneira de falar”).

– Mas quando analisamos alguns desses fenômenos isolados atribuídos ao dialeto caipira do Médio Tietê, essa exclusividade não faz sentido – afirma Almeida.

De acordo com ele, o r retroflexo pode ser encontrado em todas as regiões do Brasil. O mesmo ocorre com o rotacismo – quando no lugar do l se pronuncia um r, como em “pranta” (planta). Esse fenômeno também pode ser encontrado em todas as regiões brasileiras e está mais relacionado a variáveis ou aspectos sociais, como a escolaridade do falante, do que a motivos dialetais circunscritos a uma região.  Sendo assim, esses dois fenômenos passam a ser características do português popular brasileiro.

Em virtude do frequente contato com o português europeu, pela mídia ou por migração, traços de sotaque daqui podem também passar a ser características do português de lá.

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 13 de outubro de 2008, José de Souza Martins, professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, lembra da influência da língua nheengatu no dialeto caipira. Idioma híbrido, usado na comunicação entre europeus, índios e negros dos tempos dos bandeirantes, o nheengatu chegou a ser falado por paulistas até o começo do século 19.

Como surgem os sotaques

Os sotaques surgem por vários fatores, entre eles, históricos, geográficos e socioculturais. O primeiro deles relaciona-se às épocas em que a língua recebe influências diversas de outros grupos linguísticos por questões de dominação de diversas naturezas. O segundo, o geográfico, refere-se aos locais em que os contatos linguísticos são estabelecidos. Já o terceiro fator, o sociocultural, diz respeito às várias classes sociais, níveis de escolaridade, faixas etárias etc. A diversidade dos povos e seus idiomas contribui diretamente na maneira peculiar de falar de cada região.

– Os sotaques surgem a partir das variantes de acordo com a formalidade ou informalidade da situação comunicativa em que se encontram os sujeitos falantes submetidos sempre aos fatores expostos acima – afirma Neusa Bastos, professora do curso de letras do Mackenzie.

Por ter origem em diversos eventos pelos quais passou em sua história e não em exclusivamente um só, o dialeto, o sotaque ou a variedade linguística vai se formando, dependendo da consideração positiva ou negativa dos falantes em relação à(s) variedade(s) de contato. Portanto, de acordo com o professor da USP Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, é muito comum que os sotaques se mantenham, mas com variações, “o que é natural”.

Fonte: UOL

Autor: Adriana Natali

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